O dia que Toni se apaixonou.
Concluíra a quarta volta do circuito e iniciara os exercícios de alongamento quando se lembrou de sua jovem admiradora. Buscou-a com um olhar pelos bancos do parque. Lá estava ela, sentada, ainda sozinha. Olhava para a entrada do parque, usava as mãos como um quebra-sol. Seguiu o olhar da jovem e viu Rosana. Ela caminhava sorrindo para Toni; seu andar ligeiro não conseguia diminuir o movimento sensual de suas curvas. Aproximando-se da menina, pegou-a pelo braço, guiando-a em direção a Toni.
— Toni! Que bom ver você por aqui! Esta é Priscila, minha filha. Chegou esta semana de Santa Catarina!
A mulher falava com ele como se nada grave houvesse ocorrido entre eles. O estômago dele endureceu, sentiu-se acuado; era surreal demais, estranho demais. Ficou sem reação, balbuciou algumas palavras. Ao olhar para o rosto da menina, um sorriso enfeitava aquele rosto lindo. O pensamento de Toni se congelou, perdera noção de espaço e tempo, sua mente congelou. Era uma situação fora do normal demais. Seus olhos encontraram-se. Era linda. Os lábios grossos mostravam um sorriso de dentes alvos e alinhados, os olhos de um verde claro profundo. O vento soprava seus cabelos e um cacho teimava em ficar na frente de seu rosto. Aproximou os lábios do rosto de Toni em uma saudação de três beijos.
— Muito prazer, Toni. Rosana fala muito de você! — O hálito dela era doce, lembrava caldo de cana; seu perfume suave de flores estimulava a respirar fundo. Tentou articular alguma frase e nada conseguiu, balbuciava sílabas curtas. Acreditou ter dito que era um prazer conhecê-la. Sua mente estava entorpecida pelo absurdo de Rosana estar se dirigindo a ele como se estivesse tudo bem entre os dois. Como? Ela tentara enviá-lo pra cadeia como um espancador de mulheres, absurdo! Agora, estava ali com um sorriso sedutor nos lábios, buscando seduzi-lo, ainda seus sentidos todos embaralhados. Tentava se concentrar para impor uma atitude, mas não conseguiu. A menina à sua frente o deixava hipnotizado. Imaginou-se beijando seu cabelo, seus lábios, se viu amando-a com todo seu corpo e ser. Era muito linda, uma imagem forte; os olhos esverdeados brilhantes pareciam joias, orelhas pequenas seguravam parte de seus cabelos longos de cor castanho-claro. O nariz seguia uma reta entre suas sobrancelhas grossas, naturalmente contornando os olhos. Os lábios carnudos lembravam beijos; queria muito beijá-los. Tentava não pensar, tentava falar alguma coisa e não conseguia. Ao longe, entre nuvens de pensamentos repletos de beijos, ouviu a voz de Rosana.
— Ah! Não liga, não. Priscila, Toni é assim mesmo, um doce e tímido homem! Ô, Toni! Diga alguma coisa, está deixando Priscila sem graça!
Ria, a mulher, enquanto enfiava o braço sob o braço de Toni, mostrando intimidade que nunca mais existiria, segundo ele. Buscando se afastar do toque de Rosana, recuperou seu raciocínio e buscou elaborar uma frase educada.
— Desculpe-me, acho que é o cansaço dos exercícios. Exagerei hoje. Prazer te conhecer.
— O prazer é meu, Toni. Você que deve nos desculpar por atrapalhar você nos seus exercícios.
O sorriso da menina era estonteante, deixava Toni sem fala. Só conseguia imaginar-se beijando aquela boca.— Tudo bem. E você chegou quando? Já conhecia a cidade? — Sim, já estive aqui antes. Gosto de Campo Grande. É uma cidade legal.
— Eu também gosto muito daqui. Por ser uma capital de estado e ter esse jeito de cidade do interior, é realmente muito legal.
Completamente envolvido na conversa, Toni não havia sequer notado o braço de Rosana passado por dentro do seu, dando a aparência de um casal conversando com alguém na praça. A conversa com Priscila estava agradável; falaram sobre a cultura da cidade e as poucas opções de arte e de teatro, mas que tinha muito espaço aberto para admirar a natureza, com excelentes livrarias também.
— Toni, eu sabia que vocês dois iam se dar bem. A Priscila é viciada em livros, como você.
A conversa foi interrompida por Rosana, o que fez com que Toni percebesse a proximidade da mulher. Tirou o braço do alcance do dela e se desculpou.
— Tenho que ir, eu preciso de um banho urgente. Foi mesmo um prazer te conhecer, Priscila. Esticou a mão despedindo-se da menina, que levou o rosto oferecendo despedida com beijos. Toni sentiu novamente o hálito delicioso vindo da boca dela. Buscou não pensar, agitou-se em sair logo dali.
— Toni, poderíamos almoçar amanhã lá em casa. Que tal? Comemorar a chegada de minha menina. O convite era uma forma forçada de coagir Toni a voltar a conviver com Rosana. Ele buscou olhar firme nos olhos dela e sua negativa foi firme e educada.
— Não, Rosana. Eu estarei meio ocupado essa semana. Veremos uma data no futuro, está bem? - Falou começando a dirigir-se à sua casa.
— Está bem, então ficamos assim, semana que vem marcaremos um jantar lá em casa.
Toni ainda lançou um último olhar para a menina, que o olhava parecendo entender seu desconforto. Tentando demonstrar que ainda estava fazendo exercícios, e não fugindo daquela situação chata, correu até seu portão. Entrou casa adentro com rapidez e, no box, iniciou uma ducha demorada.
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